'Tive que pegar carona': estudantes relatam dificuldades para chegar à escola após suspensão de recargas do Passe Livre em Manaus

  • 04/11/2026
(Foto: Reprodução)
Estudantes foram surpreendidos com a suspensão do benefício em Manaus Lucas Macedo/g1 Estudantes da rede estadual de ensino de Manaus relataram, nesta quarta-feira (4), dificuldades para chegar às escolas após a suspensão de novas recargas do Passe Livre Estudantil. Sem os créditos, alguns passaram a pagar as passagens com dinheiro próprio, buscar caronas ou até faltar às aulas por não ter condições de arcar com o transporte. A suspensão foi comunicada na segunda-feira (2), por meio da plataforma "Cadê Meu Ônibus", desenvolvida pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram). Segundo a entidade, as empresas não conseguem continuar custeando as passagens sem receber os valores do Governo do Amazonas. O governo, por outro lado, afirma que quitou os repasses referentes a 2026 e que a cobrança do sindicato envolve uma dívida de 2025, que está sendo discutida na Justiça. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp A estudante Kerlyn Santos, do 2º ano da Escola Estadual Professora Ruth Prestes, na Avenida Noel Nutels, no bairro Cidade Nova, contou à Rede Amazônica que está pagando as próprias passagens. Nesta quarta, sem os créditos estudantis, ela precisou recorrer a um mototaxista. "Não está tendo jeito. É gastar dinheiro com Uber ou pagar o ônibus. Era melhor o passe estudantil, que era só encostar lá e ir embora para casa. Agora tem que ficar dependendo das pessoas. Tem gente que não tem internet para pedir Uber e precisa ficar parando as pessoas", relatou. Passe livre estudantil para estudantes da rede estadual é suspenso após impasse financeiro Outra estudante da mesma escola, Noely Silva, também enfrenta dificuldades para chegar às aulas. Ela mora no bairro Cidade Nova e utilizava até quatro passagens gratuitas por dia, já que, além da escola, frequenta um curso preparatório. A estudante disse que ainda não recebeu informações sobre quando o benefício será restabelecido. "Até agora está indefinido. Ninguém falou nada. Falaram que as aulas também não tinham como ser suspensas, mas não falaram nada sobre isso. O que querem dizer é que os alunos que se lasquem para vir à escola", afirmou. Estudantes passam a pagar passagem ou faltar às aulas A dificuldade também atinge alunos que moram em regiões mais distantes da capital. Alguns passaram a pagar a tarifa inteira, de R$ 5, para não faltar às aulas. Para quem não consegue arcar com o valor, o deslocamento ficou ainda mais complicado. Uma estudante contou que faltou à escola por não ter dinheiro para pagar a passagem. Ela conseguiu ir à aula na quarta-feira, mas precisou juntar o valor do transporte. "Ontem eu nem fui para a escola. Consegui vir hoje porque tive que pagar com dinheiro mesmo. Tive que ralar para conseguir os R$ 10. Antes, a gratuidade era de seis passagens por dia, tanto para ir à escola quanto para fazer algum curso. Agora vai ter que ser uns R$ 50 por semana", relatou. A suspensão também pesa no orçamento das famílias, que muitas vezes precisam ajudar os filhos a pagar o transporte. Uma mãe de estudante contou que percebeu o bloqueio quando tentou recarregar o cartão da filha. Segundo ela, o sistema já não permitia a renovação dos créditos e, na terça-feira (3), o benefício foi bloqueado. "Na hora que fui recarregar a carteirinha, já estava no sistema que não estava mais recarregando. Quando foi na terça-feira, bloqueou de vez. Aí já coloquei dinheiro para usar. Mas têm muitas crianças que não têm condições e estão contando com as passagens", disse. Outros estudantes também precisaram mudar a rotina para não perder as aulas. Uma aluna identificada como Beatriz conseguiu uma carona, mas teve que sair de casa mais cedo do que o habitual. "Eu tive que pegar carona e vir muito mais cedo do que o normal. Tive que acordar às cinco horas e cheguei aqui às seis para poder entrar na escola. Não posso perder aula porque vou levar falta, e eles não perdoam", afirmou. O g1 procurou o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus para saber se há previsão de solução para o impasse, mas até a última atualização desta reportagem, não houve retorno. Sinetram diz que falta de repasses compromete empresas Na manhã de terça-feira (3), o presidente do Sinetram, César Tadeu Teixeira, afirmou que a falta de pagamentos calculados com base na tarifa técnica compromete as contas das empresas e ameaça a continuidade da gratuidade estudantil. "O sistema está numa situação financeira muito crítica, porque sem esses valores vai se deteriorando. Temos folha de pagamento agora dia 5, na próxima segunda-feira, quinto dia útil, temos 13º esse mês, e sem receber, nós não temos como. E com a queda da liminar, nós temos aí, quer dizer, você tem um futuro, então os estudantes precisam ir à escola", argumentou. O sindicato também formalizou a situação junto à Prefeitura de Manaus, responsável pelo sistema de transporte coletivo, para pedir providências diante das dificuldades financeiras das empresas. A possibilidade de interrupção do benefício preocupa estudantes e famílias que dependem da gratuidade para ir à escola. Em entrevista à Rede Amazônica, uma mãe de estudante criticou a situação. "Isso é inadmissível, porque já era um direito adquirido. Eu acho que é um desrespeito com a população em geral. Porque os estudantes, eles, é prioridade deles estudar", desabafou. Governo afirma que pagamentos de 2026 estão em dia Na noite de segunda-feira (2), após o comunicado sobre a suspensão das recargas, o governador do Amazonas, Roberto Cidade, afirmou nas redes sociais que os pagamentos referentes a 2026 estão em dia. Segundo ele, mais de R$ 27 milhões foram repassados ao sindicato neste ano. "No dia 23 de outubro, nós pagamos mais uma parcela ao Sinetram no valor de R$ 3 milhões. Desde que assumi o governo, a gente vem mantendo o pagamento rigorosamente em dia", sustentou o governador. Cidade afirmou que a cobrança do sindicato envolve valores de 2025, que estão sendo discutidos na Justiça. "Essas pessoas estão utilizando esse mecanismo para causar mais transtornos à nossa população, em especial aos alunos que querem estudar, que estão no seu direito. O correto é o que nós estamos pagando por cada aluno, e o valor que nós estamos depositando todos os meses é o valor de R$ 3 milhões", disse Roberto Cidade, afirmando que adotará medidas judiciais contra a conduta da entidade patronal. Disputa envolve cobrança de cerca de R$ 250 milhões Na audiência realizada em 26 de outubro, o Sinetram informou à Justiça que as empresas não conseguem continuar custeando, com recursos próprios, as passagens dos estudantes da rede estadual sem receber os valores do governo. O Governo do Amazonas, por sua vez, afirmou ter quitado todos os pagamentos do Passe Livre Estudantil referentes a 2026, incluindo outubro, cujo repasse foi feito no dia 23. Sobre os valores de 2025, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) informou que mantém uma disputa judicial com o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) e o Sinetram. O Estado contesta a cobrança de cerca de R$ 250 milhões pelo serviço prestado no primeiro semestre daquele ano. Segundo o governo, os custos apresentados não foram devidamente comprovados. A gestão estadual também afirmou que o transporte coletivo é de responsabilidade da Prefeitura de Manaus e acusou o Sinetram de tentar transferir custos para o Estado. Na ocasião, o governo disse esperar que as empresas não interrompessem o Passe Livre Estudantil no fim do ano letivo para evitar prejuízos aos alunos. Como funciona a gratuidade estudantil? De acordo com o Sinetram, o benefício é calculado mensalmente, conforme a quantidade de dias letivos. No início de cada mês, o estudante precisa solicitar novamente a gratuidade para receber os créditos correspondentes ao período. Com a suspensão das recargas, os estudantes da rede estadual ficam impedidos de receber novos créditos, segundo o sindicato. Quem já tem saldo no cartão pode continuar utilizando as passagens disponíveis.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/11/04/estudantes-relatam-dificuldades-para-chegar-a-escola-apos-suspensao-de-recargas-do-passe-livre-em-manaus.ghtml


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